A Travessia Lapinha x Tabuleiro
em MG é um dos trekkings mais clássicos do Brasil e cruza a Serra do Espinhaço
numa extensão de aproximados 36 km. (Sem o Pico do Breu).
Essa rota liga o vilarejo de
Lapinha da Serra, que pertence a Santana do Riacho, à portaria do Parque
Natural Municipal do Tabuleiro, já em Conceição do Mato Dentro.
O trajeto tem um visual dos
gerais bem deslumbrante e finaliza na icônica Cachoeira do Tabuleiro (a maior
de Minas Gerais, com 273 metros de queda).
- Trilha de nível fácil
orientação/técnica, mas pela exigência física vai de moderado a difícil.
- Trilha possui bons pontos de
água e exposição ao sol.
Determinado a realizar essa
notável travessia, logo pesquisei sobre a logística que seria aplicada.
Basicamente me deslocaria de ônibus até Santana do Riacho e então pagaria algum
transporte até a Lapinha da Serra ou iria na caminhada por uns 12km – inclusive
deixei o wikiloc do trajeto já baixado no aplicativo. Esta última opção apenas se
nada mais desse certo. Já pra volta eu teria que embarcar num ônibus de
Conceição do Mato Dentro, mas sem antes conseguir um transfer até a rodoviária
desde a portaria do Parque Natural Municipal do Tabuleiro – que fica no final
da travessia.
Da rodoviária do Tietê, em SP,
segui rumo a Belo Horizonte, num feriado prolongado de carnaval. O plano era
chegar no sábado pela manhã na rodoviária de BH a tempo de embarcar no próximo
ônibus, que sairia às 07h30, rumo a Santana do Riacho. Acontece que por poucos
minutos não foi possível ir nesse horário, daí tive que esperar até à tarde. A
única opção seria às 15h00, uma passagem que custava em torno de R$60,00 pela
Saritur. Como eu estava sozinho decidi não procurar outra opção, pois
certamente sairia mais caro. Além do mais, esse dia seria reservado para
deslocamentos mesmo e já com um plano de acampar em Lapinha da Serra uma noite.
Lapinha da trilha
O trajeto durou mais de 3 horas,
com um caminho bonito e passando pela Serra do Cipó. Fato é que cheguei e Santana do Riacho já estava escuro. O motorista perguntou quem iria descer lá
na praça, que é o final da linha. Nessa eu já fui pros assentos da frente e
tinha um casal lá, perguntei se iriam pra Lapinha e disseram que sim.
Ofereci-me pra repartir o valor se caso tivesse vaga e disseram ok. Pessoal
gente boa. Assim estava garantida a minha ida, sem precisar ir a pé na noite
escura.
Esse trecho foi no modo emoção, o
motorista colocou o uno pra jogo na estrada de chão batido, enquanto falava um
pouco sobre Lapinha da Serra e sobre a abertura daquela estrada. Rapidamente chegamos
à vila, e assim me pus a ir pro Camping Central, onde eu passaria a noite por
R$60,00. Montei a barraca eu fui atrás de um lugar pra tomar uma breja e a vila
tava numa vibe boa. Não estiquei muito, pois teria que acordar cedo no dia
seguinte.
chegando Prainha
Dia 1
Iniciei a caminhada no dia 15/02/26,
às 07h, tomei um café da manhã reforçado na padaria. O tempo estava aberto, céu
limpo, nesse começo do dia. Logo cheguei num ponto que teria que atravessar um
trecho alagado, perto da barragem. Como eu não queria molhar o tênis, tirei e
atravessei. Nesse momento passou por mim outro trilheiro e durante todo o
percurso nos encontramos algumas vezes nas paradas pra descanso de cada um.
Acho que nos cruzamos pelo menos 2 vezes depois.
É importante carregar um mapa pra
fazer essa travessia, pois existem algumas bifurcações pra outras travessias ou
outros atrativos na região, as opções são muitas, uma região muita rica para os
amantes de caminhadas na natureza, faz parte da chamada cordilheira do
espinhaço. O nome Espinhaço vem do aspecto da cadeia montanhosa, que lembra uma
"espinha dorsal" atravessando parte do território brasileiro. Em
resumo, a Cordilheira do Espinhaço é uma longa cadeia de montanhas que
atravessa Minas Gerais e Bahia, destacando-se pela riqueza geológica, pelas
nascentes de rios e pela impressionante biodiversidade.
Existem também, nessa trilha,
muitas porteiras ao longo do trajeto, me parece que indicam que há vários proprietários
particular e trechos de parque propriamente dito. Acho que há uma transição com
relação a isso, ou não.
vista p/ Ana Benta
O primeiro ponto de referência e
de pausa é a Capela de Nossa Senhora Aparecida, quando passei tinha um
trilheiro lá dentro ajoelhado rezando. Até aqui andei uns 3,5 km e já quase
marcando o fim de uma subida inicial com um visual bem legal da Vila ao fundo e
de toda lagoa abaixo. Fazia um tempo que o céu estava nublado e assim fui
poupado de se ter um sol sobre mim, nisso a caminhada se dava num ambiente bem
tranquilo. Logo pude visualizar a imensidão dos gerais, coisa linda demais que
nem cabe numa foto, é ver pra crer.
Adiante, a caminhada fica
tranquila, sem muitos aclives ou declives acentuados, lembrando que não subi o
pico do breu. Com uns 7km desde o início, fiz outra pausa num ponto de água. A
seguir veio a Prainha Ana benta e depois a pousada Ana Benta/Lucas. Eu só
passei pela porteira desse estabelecimento que é histórico para a consolidação
dessa travessia. A partir de agora vem um trecho de subida e quando já passados
os 15km de caminhada eu cheguei no ponto de apoio Chico Lages/Celi. Lá faço uma
pausa, bebo uma cerveja, como um queijinho, troco uma prosa e sigo a caminhada,
pois faltam apenas uns 3km pra se chegar no ponto de apoio Zé de Olinta. Quando
chego no Zé de Olinta já vou logo montar a barraca, o espaço de camping é um
pouco mais abaixo do ponto de apoio. Reservei minha janta e fui pro banho. Depois
encontrei o Augusto do RJ, o trilheiro que eu tinha trombado na trilha e gente
boa demais, ele utilizou a mesma parada como base. Trocamos uma ideia sobre o
trajeto do dia seguinte e combinamos de trilhar juntos a segunda parte da
travessia. Então, com isso, faríamos em 2 dias. E eu como tava com essa parte
do roteiro em aberto, declinei em fazer em 3 dias e foi a melhor opção mesmo.
Já que Augusto tinha um resgaste combinado lá na portaria do parque.
vista camping Olinta
Dia 2
Não tivemos um nascer do sol
devido à neblina, mas o dia não prometia chuvas. Deitei mais um pouco
aguardando o café da manhã, porém devia acordar um pouco mais cedo para ajeitar
tudo e depois partir, pois esse dia seria de despedida do ponto de apoio Zé
Olinta. O plano seria ir até a parte alta da Cachoeira do Tabuleiro, passar
pelo mirante da parte alta e depois ir pra parte baixa, passando pelo mirante
da parte baixa e portaria do parque.
Pra ir na pauta alta, algumas
pessoas escondem a mochila na bifurcação que separa os dois trajetos e levam
somente o básico para parte alta. Até chegar essa bifurcação, saindo do Zé
Olinta, deu em torno de uns 2km. Preferi ir de mochila mesmo já que estávamos
num ritmo bom. Passamos uns 3 grupos que saíram na frente, mas todos com os
guias bem legais, o pessoal de lá é muito solicito com informações e trocas de
ideias: Tabuleiro Eco Aventuras, também outro guia do Eco vivência que faz o
Parna Cipó 360º, etc.
cachoeira no canion
Logo veio um trecho de descida,
mas lembrando que voltaríamos por esse mesmo trecho pra enfim ir sentido
portaria. Então na volta seria subida. Na parte alta é preciso um pouco mais de
atenção, tanto quanto aos riscos de queda durante a navegação quantos aos risco
de tromba d’água em tempo de chuva, neste último caso é preciso abortar a
missão.
Já bem próximo do topo da queda
dá uma certa vertigem, então, mais uma vez, cuidado redobrado. Passamos ainda
por outro mirante que já está constando uma placa de risco de desmoronamento na
beira do mirante. Depois dessas visitas inebriantes, voltamos pra bifurcação
das mochilas e, adiante, rumo aos quilômetros finais da travessia, sem antes
passar pelo mirante parte baixa.
topo tabuleiro
Após passar por cenários
incríveis e num tempo relativamente bom, chegamos na portaria onde é cobrado
R$10,00 de cada pessoa. Lá, por incrível que pareça, tinha um chuveiro
disponível pra tomar um bom banho antes de seguir rumo à rodoviária de
Conceição do Mato Dentro. Para se chegar na rodoviária, o resgaste que o
Augusto agendou já estava lá, ainda almoçamos uma deliciosa refeição
tipicamente mineira em Tabuleiro e partimos pra rodoviária, pra então seguir
pra BH. E aqui também, direção no modo mais emoção possível rs.
Foi show de bola essa experiência!
Sem sombra de dúvidas essa travessia é uma experiência marcante para os amantes do ecoturismo e do trekking. Foram cerca de 35 a 36 km de extensão, atravessando campos rupestres, cânions, riachos e mirantes de grande beleza cênica, exigindo bom preparo físico devido aos trechos íngremes e à duração de dois dias de caminhada. E, por fim, terminando próximo à imponente Cachoeira do Tabuleiro, considerada uma das mais altas do país. Sem contar a oportunidade de conversar com outras pessoas que curtem o mesmo mundo trekking e de montanhas.
Final de ano de 2025, dia 29/12, parti da região rural de
Várzea, que fica distante uns 17km do centro de Piatã, para a região da Guiné
e, após umas dicas, decidi ir via Mucugê. No entanto, a estrada que peguei
judiou um pouco do carro sedan normal que eu tava. Realmente uma estradinha bem
ruim fez com que não compensasse os quilômetros ganhos de distância se
comparado ao outro trajeto – que ia sentido Boninal. Pra quem quiser saber
sobre a primeira parte da viagem pra Piatã, deixarei o link aqui: https://pedenatureza.blogspot.com/2026/07/chapada-diamantina-pico-do-barbado-e.html
Com uma trajeto desse não deu outra e meu pneu dianteiro
direito furou ou estourou, não sei. Pois ainda cheguei a rodar um pouco sem
perceber o que estava acontecendo, mas a direção puxando e o cheio de borracha
subindo fizeram com que eu parasse e observasse o ocorrido. Por bem dizer, não
faltava muito pra chegar, porém não era esperado que perder mais tempo pra
iniciar a trilha, até porque não tava contando com um locomoção tão lenta
devido às condições já mencionadas.
Troquei o pneu sob aquele sol rachando a cuca. Depois disso
fiquei até mais apreensivo porque nenhum pneu poderia mais furar, um lugar bem
remoto não teria uma borracharia tão acessível. Contudo, até a chegada ao estacionamento
Aleixo, nada mais ocorreu.
Logo quando cheguei, percebi uma placa informando que em
breve cobraria uma taxa pra estacionamento, não estava vigente nessa época e
com isso apenas deixei o carro, arrumei a mochila, conferi o mapa no celular e
comecei a caminhada. O plano era o seguinte: 2 pernoites acampado na Casa Agnaldo
e Miguel.
- 1° dia: Mirante Aleixo; Mirante Vale do Pati; Igrejinha;
Cachoeiras Lajeado, Funis, Bananeiras; Camping Agnaldo e Miguel. (10,5km);
- 2° dia: Morro do Castelo; Mirante Pati Baixo; Camping
Agnaldo e Miguel. (7km);
- 3° dia: Subida da Fenda; Mirante da Fenda; Mirante
Cachoeirão; Mirante Aleixo e Estacionamento Aleixo. (17km);
Por volta das 11h30, do dia 29/12, iniciei a trilha sob um
sol forte, ainda bem que eu estava com meu chapéu de palha pra salvar um pouco.
Eu olhava pra frente e via um paredão a ser vencido, praticamente logo de cara,
pra mostrar que o trekking do vale do pati não é só molezinha e visuais
esplendidos proporcionados pelos chapadões da natureza. Era uma segunda-feira e
já havia alguns grupos mais pra frente e outros que iriam começar ainda, só
estavam numa resenha lá no estacionamento. Como eu estava sozinho já fui no meu
ritmo sem tantas paradas de início, isso até chegar na metade da subida, aí sim
senti um pouco o calor, a mochila e as pernas rs. Sem crise, num ritmo mais de
boa, logo cheguei no Mirante dos Aleixos, somos agraciados até com um abrigo
natural das rochas. Lá, uma trilheira estava passando mal e seu guia a ajudou.
Ofereci uma banana que minha mãe fez questão que eu levasse, mas não era caso
de câimbra e eles agradeceram.
Até aqui foi rodado apenas 1,5km, enquanto uma galera fazia
sua pausa ali, eu segui. Agora o cenário era mais plano e já podia avistar três
morros imponentes bem mais ao fundo. Sim, um trecho bem agradável até a chegada
do Rio Preto, onde abasteci de água usando clorin. Aproveitei e perguntei pra
um guia se estavam bebendo dessa água normal, daí ele me disse que pra ele era
de boa, mas que alguns clientes já passaram mal por não ter o costume. Enfim,
eu também não tive problemas. Nessa travessia do rio é possível fazer a pausa
pra banhos e uma galera fazia isso também. Eu segui!
vista da subida do Aleixo
Com uns 5km, desde o início, cheguei no Mirante do Pati. Um cenário incrível aquilo ali, coisa de outro mundo que custei a acreditar em tamanha beleza. Isso só faz reforçar que estar ali valeu muito a pena. E revigora pra continuar a caminhada, agora enfrentar uma íngreme descida. Após, segui à esquerda, que é o caminho que contorna o morro e passa pela igrejinha e pelas cachoeiras. Se eu seguisse a trilha reta, daria no Morro do Cruzeiro.
Mais 1,5km desde o Mirante, ou seja, 6,5 desde o início,
cheguei na Igrejinha e logo reabasteci a garrafa de água, pra mim é bom sempre
andar com muita água porque no calor eu consumo bastante. Percebi que tinha uma
galera montando acampamento, mas o ideal ali é para se hospedar nos quartos. Inclusive
depois encontrei com essa galera que lá acampou e disseram mesmo não ser
estruturado pra camping.
Altina
Mais uns 500 metros passo por um cemitério, pra mais adiante
chegar a primeira cachoeira do dia, no meu mapa diz Cachoeira da Altina. Digo
isso porque analisei outros mapa e continha outro nome, mas, enfim, lá foi onde
tomei aquele banho refrescante e merecido. Sensacional! Aquela pausa pra
contemplação e lanches.
Continuei meio que uma trilha ao lado do leito do rio, até
interceptar a trilha pra chegada na Cachoeira dos Funis, esta com uma
característica já diferente da anterior, pois possui um belo poço é mais
estreita e fechada. Como já havia me banhado, só fiz uma breve pausa. A trilha
continua na outra margem do rio e em pouco tempo – bem de boa – cheguei na
Cachoeira das Bananeiras. Tinha um grupo lá, inclusive reconheci um guia que
era de sp, mas eu segui já na vontade chegar ao Abrigo Agnaldo e Miguel.
Cachoeira dos Funis
No caso minha preocupação era quanto à refeição, porque eu
não agendei nada! Como minha viagem eu mesclava os compromissos com minha mãe
em leva-la pra visitar as pessoas e das minhas aventuras trilheiras, ficou
difícil pra eu cravar a data que realmente eu iria fazer essa travessia. Vide
que a primeira parte da viagem, relatada no post anterior, eu fazia mais uns
bate e volta, como escape.
Sei que com uns 10km desde o início eu cheguei na Pousada
Agnaldo e Miguel. De fato eu não teria janta naquele dia, mas tinham outras opções
pra comer algo. Assim sendo, montei minha barraca, relaxei e fui pro banho. Se
eu não me engano os chuveiros são frios, não são energizados. Eu mesmo que não
tomaria banho quente num dia de calor daquele. O valor do camping nesta data
foi de R$60,00 e a janta é o mesmo valor. Além de deliciosos pasteis, eles
vendem refrigerantes e cervejas. Tomei algumas latinhas pra relaxar junto com
pastéis. A cerveja sai mais cara devido ao trabalho de se chegar até lá.
Lembrem-se que é uma acomodação bem remota, não se chega veículo motorizado com
facilidade. Agora tem a opção de camas em quartos compartilhados e acredito que
um quarto individual, daí é preciso checar e fazer reservas. A energia chega
através de placas solares.
Bananeiras
Dia 2
Acordei bem cedo, rodeado pelas montanhas e aquela neblina
costumeira de uma manhã em meio à serra. Esperei o café da manhã, farto por
demais, já pra dar energia pra trilha do dia: Morro do Castelo.
O Morro do Castelo é o ponto culminante do Vale do Pati, pra
alcança-lo é necessário fazer uma trilha íngreme e irregular, porém bem batida,
sem tantas dificuldades de navegação – nesse dia seria um bate e volta até a
pousada (mochila de ataque). Logo nos primeiros quilômetros tem um ponto de
água que achei impressionante, água geladinha e limpa. Na volta foi a salvação,
pois eu estava com sede já.
Já quase no topo tem uma gruta, que estava interditada e por
isso não acessei, mas vi algumas pessoas que acessaram. Deviam estar sendo
guiados por guias de fora da região, ou de cidades adjacentes. Enfim, pela
preservação e pelo risco de dano, eu preferi não ir e seguir na trilha mais
recente pra evitar a gruta.
Mirante Pati Baixo
Ainda sem nenhum visual, visitei o Mirante do Pati de Baixo.
Lá aguardei o tempo abrir e assim se fez. Mais um espetáculo na Chapada
Diamantina. Adiante, aí sim, fui pra outra parte do Morro do Castelo, tempo já
aberto também. Um visual de 360º podendo ver várias regiões, a Cachoeira do
Calixto – que eu não iria visitar nessa ocasião.
A volta foi tranquila e à noite teria a tão esperada janta,
que de fato me surpreendeu. Comida local sem frescuras e em grande quantidade.
O tempero maravilhoso e na hora lembrei da minha mãe e minhas tias, pois muitas
coisas eu já tinha o costume de comer. Feijão Andu, Arroz Vermelho, Palma,
Abobora com quiabo, vixi – muita coisa. Um caldo/creme de ervilha saboroso pra
opção de proteína sem origem animal. Incrível! Imagino pros gringos como deve
ser essa experiência de alimentação, de muito valor!
Por fim, foi só dormir, sem antes pegar o celular que estava
carregando, mas a carga foi lenta. Sorte que eu tava com o power bank – é
necessário esse item pra quem tiver acompanhando o mapa pelo celular durante os
3 dias.
visual no Castelo
Dia 3
É dia 31/12, véspera de ano novo, todo mundo combinando onde
passar o réveillon, alguns falavam de algum forró pelo Pati, outros em fogueira
e luar, enfim, no meu caso seria o dia da volta, fechar o circuito de volta pro
Aleixo passando pelo Mirante do Cachoeirão, mas sem antes vencer a subida da
Fenda. A questão é que esse dia já seria trilha com cargueira mesmo.
Desmontei a barraca e arrumei a mochila. Tomei mais um café
da manhã reforçado, acertei as contas e parti. Este é o dia derradeiro e onde
mais se caminha, serão mais de 16km. A trilha segue de boa, passei pela Pousada
da Léia, depois da Dona Raquel e, ao avistar a Pousada do Zé Preto, virei à
direita rumo à ascensão até a Fenda. Essa subida eu sabia que seria braba. Não
foi pra menos. Nesse dia eu segui praticamente sozinho, pois não era o plano de
ninguém deixar o Pati no dia da virada do ano. Depois de uns 2km de subida árdua, cheguei no
Mirante da Fenda e me aloquei numa espécie de abrigo, ali com cuidado fui
caminhando. Em seguida veio a subida final da Fenda, neste local a trilha deu
uma confundida, mas seguindo a direção do tracklog ajuda demais a se orientar.
Aqui já passei a racionar mais a água já que na subida eu
bebi bastante. Impressionante que, além da beleza cênica, os tipos de trilha
são variados. Até aqui já passei por morros íngremes, por leito de rio, por
rochas, por areias, por lugares mais planos dos gerais, perto de gruta, cumes,
vales, etc. É demais, um sonho sendo realizado, um desejo de anos atrás que
parecia distante, mas que nessa ocasião se fez real.
chegando na Fenda
Esse dia, uma caminhada mais longa, fui na cautela até
chegar o Cachoeirão. Um espetáculo novamente. No caso eu não consegui ver a
queda nitidamente, pois, pelo horário, estava sombreado o local da cachoeira.
Mas o mirante é magnifico, não tinha ninguém também quando cheguei, não pude
tirar aquela foto que o pessoal se arrisca mais rs. Apesar de que nem é muito
meu perfil me arriscar por uma foto, mas ter uma fotinha dali seria loko
demais.
O sol estralava, água já no limite. O próximo ponto de
abastecimento hídrico estava por chegar. A caminhada continuava sentido o
Mirante Aleixo, tinha chão ainda. Cruzei o Rio Preto novamente e lá fiz uma
pausa.
Só sei que no fim da tarde eu cheguei no estacionamento e fu
direto na vendinha que estava aberta, na verdade quase pra fechar! Dei sorte e
pedi um refri e uma cerveja pra comemorar. Utilizei o wifi do local pra pagar
no pix e já carreguei o caminho de volta pra Piatã. Decidido a não fazer o
mesmo trajeto da ida. Foi aí que o rapaz do estacionamento me indicou o melhor
caminho e, como ele já estava fechando, disse pra segui-lo que ele ia mostrar
os caminhos até ele chegar na casa dele e de lá eu poderia seguir numa boa que
iria dar na estrada rumo à Boninal.
Mirante Cachoeirão
Dito e feito, segui sua moto por umas estradas de chão
batido, mas bem transitável, esse rapaz foi super gente boa, ainda convidou pra
fazer uma pausa lá com seu pessoal, já era clima de ano novo, mas eu disse que
ainda ia encontrar minha mãe e minha tia lá em Piatã. Já em Boninal eu abasteci
de combustível – que tava na reserva já. Nenhum pneu a mais furado. A única
questão é que cheguei bem cansado na roça onde estava hospedado. Tomei uma
ducha rápida e ainda tive que levar minha mãe lá pra cidade, pra ver os fogos
da virada em Piatã. Contudo eu nem aproveitei, nem do carro eu sai.
Infelizmente no dia seguinte tivemos a notícia do falecimento de minha querida
tia Bela, em sp. Mantivemos a volta pro dia 4, pois não daria pra voltar pra sp
tão rápido assim. Também não dei continuidade em outros roteiros que tinha no
pente, fica pra uma próxima! O misto de sentimento tava instaurado, não poderíamos
nos despedir da minha tia, a mais grudada com minha mãe e a que muito
conversava comigo. Dias antes eu havia visitado, pela primeira vez adulto, o
local onde elas nasceram e cresceram – uma casa já sem telhas, na roça, cercada
pelas montanhas. As memórias permanecerão!
Essa vida de poder algumas vezes caminhar imerso na natureza traz uma inspiração que flui para o restante de tempo da vida em que não se está nesses espaços. Inspiração (inspirational) que outrora poderia levar a lugares imagináveis apenas na mente, ou convertidos em versos, música e ritmos. Alguma vez se torna real e vivido. Então o que irei relatar a seguir se trata de uma bela travessia por praias paradisíacas rodeadas pela bem verde Mata Atlântica e passando por comunidades caiçaras. Mochila nas costas e muita disposição.
Localizada no litoral norte do estado de São Paulo, Ilhabela é um município-arquipélago que é muito procurado por turistas, mochileiros e esportistas por oferecer diversos atrativos como praias, montanhas, cachoeiras, esportes, cultura e lazer.
Nossa equipe era composta, mais uma vez, por mim e meu primo, Fepa. De travessias nesse estilo já tínhamos feito uma meia volta em Ilha Grande e também a Travessia da Juatinga, ambas no litoral sul do estado do Rio de Janeiro. Obviamente ficamos encantados com estes lugares e sempre duvido que haja algo tão bom quanto. No entanto, tem sim rs. Essa travessia de Ilhabela é um exemplo do paraíso.
Num feriado prolongado do mês de abril de 2025, logo decidimos fazer alguma viagem, a princípio poderia ser pros lados do Parque Nacional do Itatiaia, pois temos a Pedra do Sino já em mente pra fazer num dia e a Travessia Couto-Prateleiras (base) num outro. Contudo, a previsão não tava tão boa pra lá e no site contava que o Morro do Couto tava interditado, enfim, escolhemos o roteiro de praias.
Já pela manhã de quinta-feira, dia 17/04/25, partimos de SP pra São Sebastião de carro. Tanque cheio por volta de R$260,00 e mais os custos do pedágio junto com a travessia da balsa constavam uns R$ 60,00. Só a travessia da balsa entre São Sebastião e Ilhabela custava R$ 19,50. Quem estiver a pé ou de bike não paga.
Quando se chega na balsa já dá pra notar a beleza do outro lado da borda. Olhando pra esquerda parece ser a direção norte da Ilha/arquipélago e pra direita tínhamos a parte sul da ilha. O nosso destino era pra parte sul e um pouco antes das 13h já começamos a trafegar numa estradinha estreita que na nossa direita aparecia diversas praias margeando essa estrada, fora o visual estonteante de toda aquela água bem azul contrastando ou se juntando com o verde dos morros.
Não fizemos paradas e fomos direto até Borrifos, pois nosso tempo tava contado pra iniciarmos a trilha, uns 12km nos esperava pra caminhar e como já tínhamos chegado de viagem e dormido mal, o ritmo poderia ser mais cadenciado e não queríamos e nem gostamos de fazer trilha à noite, ainda mais num lugar que é conhecido por se ter muitas cobras, por exemplo.
Em termos de logística existem algumas possibilidades pra quem vai de carro, mas dá pra ir de ônibus também, tranquilo. Fizemos essa avaliação se iríamos de busão ou de carro. Fizemos a contas de tempo e grana e então decidimos ir de carro. Agora tinha que pensar onde deixar o carro estacionado durante uns 3 ou 4 dias. Primeiro pensamos antes da balsa, ainda em São Sebastião, depois pensamos no centro de Ilhabela após atravessar a balsa e de lá pegar o ônibus até Borrifos.
No entanto, como tínhamos o tempo contado pra iniciar a trilha do dia, optamos por estacionar lá em Borrifos mesmo, do lado da entrada do Parque Estadual de Ilhabela e início da trilha para a Praia do Bonete. Só que no final a travessia termina lá do outro lado, daí teríamos que voltar pro centro e pegar esse ônibus de qualquer jeito. Enfim, acertamos o valor de R$ 40 a diária e o primeiro dia com desconto de R$ 10 lá no estacionamento do Zé da Sepituba. Pagamos R$110 para 3 dias.
Início da Trilha do Bonete (12km)
Um pouco antes das 14h estávamos ouvindo as instruções do monitor do parque que, diga-se de passagem, não foi muito amigável e esboçou uma bronca em nós devido ao horário. Disse que já tava tarde e o trajeto seria de cinco a seis horas de trilha. Eu disse que estávamos preparados para justamente fazer essa caminhada, e estipulamos que faríamos em menos de quatro horas. Ele disse que havia chovido dias anteriores e o trecho estava muito escorregadio. Aí fui inventar de falar sobre nosso plano de travessia até Castelhanos, foi então que ele não incentivou de forma alguma e que deveríamos procurar um guia para fazer o restante. Enfim, um banho de água gelada, mas estávamos preparados de fato. Adiante, só ouvimos suas instruções e partimos.
O dia tava lindo, não com aquele sol forte, mas um nublado de boa. Previsão de chuva não tinha para aquele dia e contávamos com isso. Após receber os bons incentivos do monitor, logo comentamos que se estivéssemos de chinelo, chapados, com bagagens de mão, aí seria motivo pros alertar incisivos. No entanto, não era o caso, e se uma pessoa não tivesse pesquisado sobre a trilha a ser enfrentada, talvez desistiria ali e buscava ir de barco, ou contratar um guia, ou se hospedar por ali perto, sei lá, só sei que após 2,3km veio uma bifurcação que leva pra Fazenda da Laje à direita, porém seguimos à esquerda pra logo depois, 200 metros, encontrar a Cachoeira da Laje. Nessa Fazenda tem a opção de passar o dia e opções de hospedagem também, ao longo da trilha havia placas com os preços. Como não tínhamos tempo pra passar lá, seguimos direto.
Ponte Cachoeira Laje
Na Cachoeira da Laje tem uma queda que parece um escorregador/tobogã, muito convidativo, o lugar é belíssimo de fato. Contudo, dessa vez só atravessamos a ponte sem fazer uma pausa lá.
A trilha seguia muito bem demarcada, por vezes bem larga, tipo uma estradinha desativada que, sim, estava escorregadia em alguns trechos, mas nada de dificuldade. Também sabemos que eventualmente a comunidade do Bonete pode utilizar esse caminho se caso as outras opções estiverem indisponíveis.
A caminhada continuou desimpedida, a cada passo aproveitava mais a oportunidade de estar imerso na mata atlântica, respirando um ar mais puro, botando a sola do pé em terra firme, não em cimento – isso faz a diferença! Teve sim algumas subidas e descidas, mas é algo que faz parte do jogo e curtimos isso. Eu sempre mais de boa, tinha dormido pouco e assim eu poupava as energias pra não passar perrengue, pois apesar da navegação ser tranquila, a trilha em si exige certo esforço físico, 12km no total não é também qualquer coisa e com mochila cargueira com roupas e barraca de camping acaba pesando um pouco.
Com quase 7km de trilha chegamos na Cachoeira do Areado, sua ponte estava interditada e também não fizemos uma pausa longa aqui e seguimos já sabendo que passamos da metade da trilha do dia rs.
Com mais 3km chegamos no Mirante do Bonete, aqui já conseguimos avistar a praia e parece já estar pertinho, mas como o monitor tinha dito, isso era ilusão porque ainda faltaria uns 25 minutos. O mirante em si é belo, um visual do Bonete junto ao horizonte de morros e aquele céu com suas nuvens deixando um pouco de céu azul aparecer.
Avistando Bonete
Com mais de 500 metros adiante passamos por outro atrativo, a Cachoeira do Saquinho que, a exemplo das cachoeiras anteriores, apenas passamos demos salve e seguimos. Já começava a escurecer aos poucos, depois das 17h no mato dá a sensação de ser mais tarde, mas foi tudo ok. A seguir foi encontrar um mirante bem mais próximo da praia, que estava vazia, uma tarde que ia se finalizando!
Então antes de escurecer chegamos na Praia do Bonete, etapa primeira concluída com sucesso, um pouco de cansaço de fato e já fomos trocar ideia lá no Camping Outro Canto. Após a apresentação da anfitriã Valéria, decidimos acampar lá e então fomos montar as barracas, esse camping fica bem ao lado da trilha que fizemos. A vantagem de ser pé na areia conta com uma diária de R$ 70,00.
Nessa noite ainda fomos comer uma pizza e tomar uma breja na Pizzaria da Pousada da Rosa, foi show de bola, a vila é muito charmosa à noite, os estabelecimentos são criativos com os jogos de luzes, deixa um ambiente bem aconchegante.
Dia de curtir a Praia do Bonete
Amanheceu mais um glorioso dia, logo certo eu fui pra perto da água do mar e de cara percebi algo que falam muito, mas bastante mesmo: os borrachudos de Ilhabela. Na noite anterior eu andei de boa em Bonete sem ser incomodado por nenhum. Depois fiquei sabendo que à noite eles dormem e que nesse momento poderia economizar o uso de repelente. Aliás, nem tínhamos comprado um repelente ainda, na balsa tava vendendo mas achamos que era superfaturado rs. Acabou que compramos um pelo mesmo preço e nem era o da ilha mesmo, porém serviu do mesmo jeito. Custou R$40 lá na Mercearia do Cláudio, perto do Hostel Sambaqui.
E foi nesse hostel que tomamos o café da manhã, muito bom por sinal e um lugar bem legal! Pagamos R$ 40 cada um. Adiante, com um dia convidativo para uma caminhada, fomos até a outra extremidade da praia e assim passamos um tempo perto do rio, meu primo chegou a se banhar. Eu fiquei de boa, achei que o mar tava meio agitado, preferi contemplar a natureza numa rocha.
Água doce se junta com a Salgada
Nesse meio tempo, alguns barcos já iam chegando com os visitantes para serem recepcionados pelos locais e alguns cachorros que brincavam na areia. Na água muitas crianças se divertiam pra valer!
Mais tarde fomos beber aquela gelada no quiosque das meninas e de lá só saímos pra ir almoçar lá no Restaurante. Depois continuamos os trabalhos lá no Okreanos, ouvindo um bom som e olhando o movimento da vila. Já era noite quando fomos na Pizzaria Laboneteria, lugar show de bola novamente.
A trilha do desafio: Bonete até Castelhanos (19km)
Confesso que bebi mais do que imaginava no dia anterior, mas ainda desse jeito dormi bem tranquilo. O céu azul estralava e o dia prometia ser sofrido rs. Na cabeça eu imaginava uns 16km já sabendo que na real era mais de 18km, fora uma subida máster, que só de olhar no mapa dava preguiça. Mas eu sabia também que com aquela velha paciência tudo se resolve. E pra me consolar sempre digo, pior que o bate-volta da pedra da mina não haveria de ser, então bora!
Antes, tomamos um bom café da manhã no mesmo hostel do dia anterior, o Hostel Sambaqui. Lá, outra trilheira disse que iria até Indaiaúba. Nós seguimos na frente, a mochila parecia estar mais pesada nesse dia, mas era só a sensação mesmo. Nesse trecho que viria os pontos de água são vários, então não há necessidade de carregar tanta água.
Depois de passar por dentro da vila e atravessar umas duas pontes, logo veio uma subida boa. Esse trecho era exposto ao sol, lembrando que iniciamos umas 09h da manhã. Adiante, nos deparamos com um visual da Praia do Bonete, belíssimo! E um a bifurcação dizendo que pra direita seria um mirante, porém preferimos à esquerda e continuamos a caminhada, até aqui 2,5km já tinha ficado pra trás.
Aqui o aspecto da trilha ainda era parecido com uma estradinha, um pouco mais larga e bem tranquila de navegação. Mais 1,5km chegamos no Mirante para a Praia das Enchovas e totalizando menos de 50 minutos chegamos em sua praia. Totalmente deserta, apenas uma propriedade privada e nada mais. Muitas pedra e uma faixa de areia mais tímida que, com uma maré mais alta, pode desaparecer;
Praia das Enchovas - Abril/2025
Havia uma placa para não entrar na propriedade, mas o track que estávamos seguindo indicava passar pelo quintal da casa. Percebemos que tinha o que parecia ser outro caminho, porém seguimos o mapa gravado. Logo atravessamos um rio e continuamos até a próxima parada: a Praia de Indaiaúba.
Com mais 3km desde a Enchovas, passamos pela placa que indica a propriedade particular do que já falaram ser um antigo rei da soja, estaríamos sendo monitorados uma vez ali e a partir de então o trajeto era de calçamento. Depois de avistar uma cachoeira elegante, eis que chegamos na Praia de Indaiaúba. Eu logo me joguei no chão para fazer uma pausa mais longa. Eu já tava sentido a trilha e ainda nem tinha chegado a parte pior rs. A trilheira que conversamos no Hostel chegou logo em seguida, e partiu direto pra conseguir uma carona de volta pra Bonete com os diversos barcos de passeio que estavam em Indaiaúba. Um moço que trabalhava lá na propriedade, deu um salve também, ele disse que viu a gente lá no Okreanos no dia anterior. Cheguei a perguntar pra ele se tinha barco regular pra Castelhanos de lá, e ele disse que não. Só perguntei pra saber mesmo, eu ia sim encarar o restante da trilha de qualquer jeito.
Praia de Indaiaúba - Abril/2025
30 minutos de descanso e bora partir. Assim que saímos, um grupo chegou, esse grupo estava acampado lá no Outro Canto também, nem vimos a hora que chegaram e também saímos do camping mais cedo.
Adiante, veio uma adutora antiga e voltou o trecho de trilha mesmo. Após passar um ponto de captação de água é necessário ter atenção, pois uma pequena barragem nos faz crer que a trilha segue direto, porém nesse trecho há uma bifurcação importante à direita. Esse foi o único ponto de confusão que vi nessa trilha, de resto com o mapa fica bem de boa a navegação, já em termos de exigência física, não posso dizer o mesmo. Essa parte vem mesmo pra desafiar, primeiro com uma subida que atinge uma elevação de quase 300 metros de altitude sendo que a gente parte praticamente do zero. Com muita paciência e junto de dois apoios que encontrei no mato essa subida foi vencida, e apesar de íngreme ela não é uma escalaminhada e isso já ajuda muito, navegação muito tranquila.
Agora depois que passamos essa subida aí sim começou a mata se fechar cada vez mais, muitas arvores atravessadas, trecho com cipós atravessados, bambus... aí se faz necessário desviar, pular obstáculos, se arrastar, era uma mistura de tudo isso, por um longo tempo e deixando a trilha mais cadenciada por si só.
Por bem dizer só com 16,5km de trilha, desde o início do dia, é que chegamos num local com a vegetação baixa e menos densa. Foi o momento que já conseguíamos avistar um pouco da Praia Vermelha. Nesse trecho só descida, ufa! Não dava pra esmorecer porque ao olhar para o céu era nítido o sinal de que iria chover e não ia ser pouca coisa. Escureceu consideravelmente. Mas tínhamos aí mais uns 3km pra chegar em Castelhanos.
Aqui, novamente, muitos pontos de coleta de água, não precisávamos andar com a garrafa cheia. Logo chegamos na Praia vermelha. Uma praia bem bonita e de tombo, areia fofinha e tamanho moderado. Alguns locais que cumprimentamos e perguntamos se faltava muito. Uns 30/40 minutos foi a resposta junto com o incentivo de que a trilha agora é super tranquila. De fato era mesmo, alguns trechos até calçados e por todo o trajeto tinha corrimões. Nessa parte encontramos muitos locais voltando de Castelhanos e sempre muito simpáticos, achei legal a vibe de lá.
A tensão era essa: chegar antes da tempestade. Quanto à trilha noturna, não teve jeito fizemos um trecho usando as lanternas, mas como já tava chegando menos mal e pelo movimento menos chances de encontrar alguma cobra no meio da trilha. E assim se fez, não trombamos com nenhuma.
Enfim, 18h já tinha se passado quando chegamos em Castelhanos, já bem escuro e muitas nuvens de chuva. Alguns barcos iam voltando com os últimos turistas que lá estavam. Como não tínhamos reservado nada ainda, procuramos um camping. No mapa apareceu a opção do Camping do Leo e lá fomos. Missão cumprida, foi incrível. E quando vi que lá o espaço das barracas tinha cobertura de lona, apenas deitei no chão contente demais. Não deu 10 minutos e a chuva veio sem piedade, forte demais!!!
Praia de Castelhanos e a volta de Jipe.
Na madrugada eu tinha acordado pra ir ao banheiro e dei uma olhada pro céu e já tinha eu faixa boa de céu limpo e estrelado. Já imaginei que iria amanhecer um tempo bom.
nascer do dia em Castelhanos
Não deu outra, acordei de fato umas 06h30 e já segui até a faixa de areia da praia e lá estava um sol lindo nascendo, foi incrível. Castelhanos tem um ambiente mais roots ao meu ver, uma praia mais calma para banho. Com o repelente em dia, me pus a caminhar até sua extremidade esquerda, onde é o caminho pra cachoeira do gato, essa queda não fomos dessa vez, nos atemos em visitar o Mirante do Coração com sua escadaria de madeira que facilita a nossa ascensão até o mirante.
O café da manhã foi no Camping e Restaurante do Castelhanos, que se localiza ao lado do Camping do Leo, lá inclusive foi onde comemos um lanche na noite anterior, e lá é um camping com chalés, o atendimento foi bem bom, vale a pena!
Pra relaxar, finalmente tomei aquele banho de mar merecido, numa água cristalina e bem calma... que lugar abençoado, demais! Depois foi só curtir o Quiosque da Déka com Heineken por R$ 20 a garrafa de 600ml e a famosa e saborosa caipirinha de folhas de mexerica por R$25. Castelhanos é tudo de bom! Lembro-me de um colega viajante jipeiro que trombei lá em Cavalcante, na Chapada dos Veadeiros. Lá ele me indicou essa praia, pois eu fiz a besteira de dizer que preferia água doce do que água salgada, daí ele comentou que na real eu não conhecia as praias mais firmeza e me indicou essa de Castelhanos rs. Ele tinha razão. E só agora, depois de uns 6 anos, que tive a oportunidade de ir.
Praia de Castelhanos - Abril/2025
Meu primo logo ajeitou de negociar a volta no quiosque mesmo, pois o tempo tinha ficado escasso pra abandonar ali e ir negociar lá perto do estacionamento com o pessoal das agências. Ali mesmo aceitamos o valor de R$100 e garantimos a volta de jipe, até porque lá, nessa estrada de volta, tem horário programado pra quem vem e pra quem vai. Do Perequê até Castelhanos o horário de funcionamento é das 07h às 14h. De Castelhanos pra Perequê é das 15h às 19h. e foi mais uma aventura em si essa volta. O jipe vai que vai e foi melhor mesmo essa opção, pois caminhar por ali não valeria a pena nesse momento, são 22km. Nos demos por satisfeito!!! A travessia ficou concluída dessa forma. Realmente fiquei muito contente com essa aventura!
Nada do que ter aquele sueto (folga) para fazer uma trilha e
respirar o desejável ar da natureza. Nada do que ter uma previsão do tempo
favorável para exercitar as pernas e descansar a mente numa viagem, que embora
breve e dinâmica, foi bem proveitosa.
O destino da vez foi nada mais nada menos que Ubatuba, esse belíssimo
litoral que aos poucos eu passo a conhecer. A trilha da vez foi a da 7 praias,
muito já tinha ouvido falar desse rolê. Ouvi tanto que me parece que o certo
era eu ter feito essa trilha antes mesmo de ter encarado a Travessia da
Joatinga, na região de Paraty e até mesmo antes de ter trilhado por Ilha
Grande, Angra dos Reis. Mas o destino quis assim e tá tudo certo – o importante é que aproveitei da mesma forma.
Pontão da Fortaleza
Transporte: Fui
de ônibus, embarquei na rodoviária do tietê no dia 29/05/2024. Comprei a
passagem para 22h30 e paguei por volta de R$120,00, pela internet. O fato é
que acabei me atrasando e consequentemente perdendo o ônibus desse horário. O
desespero de quem teria que abortar a missão ou ter que esperar o primeiro
horário do dia seguinte já veio latente, por sorte havia mais um horário, pois
era véspera de feriado que culminaria num fim de semana prolongado. Parti nesse
busão das 23h20.
O fato é que por volta das 04h00 eu desembarquei na
rodoviária de Ubatuba (essa rodoviária da pássaro marron, para ônibus de sp).
Dessa rodoviária segui para o terminal rodoviário da verde bus, lá eu tomaria o
primeiro ônibus do dia, rumo à Praia de Fortaleza. O horário desse ônibus foi o
da 04h50, preço de R$5,00.
Desci no final dessa linha Fortaleza, nisso o dia ia
amanhecendo ainda, de forma tímida. Não era nem 06h30 e eu estava parado na
praia de fortaleza vendo o dia nascer. A maré tava alta, portanto fiquei bem
encostado nas muretas da casas grandes e bonitas que beiravam o mar. Ainda
assim, o lugar se dá totalmente cercado pela exuberante mata. Ubatuba consegue
proporcionar isso pra gente.
Pontão fortaleza
Trilha: Olhando
de frente para o horizonte, iniciei a trilha na ponta direita da praia. Não era
nem 07h da manhã ainda. Estava sozinho e ninguém tinha chegado na praia de
fortaleza até então. Uma placa indicava o começo e passava algumas informações.
Logo depois veio uma bifurcação que era bem obvia, pra um lado tinha o caminho
para as piscinas naturais e do outro, continuava a travessia. Como as piscinas
naturais é bom conhece-las já sob o sol feito, deixei pra próxima, até porque o
mar tava bem agitado e nada de formar aquelas piscinas tranquilas.
Logo depois apareceu outra bifurcação, à esquerda seguia
para a Pedra da Tartaruga e Pontão da Fortaleza. Pra lá eu fui, um trecho breve
e já estava apreciando o local, de quebra já tive todo um visual da praia de
fortaleza além de avistar ao fundo o Pico do Corcovado, bem amostrado em meio à
mata.
Após alguns clicks, voltei pelo mesmo caminho até a bifurcação
e retomei o caminho da travessia, rumo à Praia do Cedro. Posso afirmar que esse
trecho (até Cedro) foi o mais cansativo de todo o rolê, até porque é onde se atinge os
ponto máximo da travessia (86metros de altitude), mas ainda assim é de boa de
fazer, na cautela fica tranquilo por demais, alguns sobes e desces, alguns
trechos um pouco inclinados e até escorregadios para ser ter atenção, no
entanto, nada impossível. Meu ritmo foi suave, todo cuidado com os trecho que
se fechavam um pouco e com isso aquela atenção com animais peçonhentos e tal. Acredito
que em 1 hora de trilha eu estava na Praia do Cedro.
Bonete
Aqui o mar continuava agitado, tinha uma turma acampada em
uma barraca, acenei e continuei a caminhada pela areia fofa. Do lado mesmo, já
tinha a Praia do Deserto, nisso passou por mim um moço da corrida, carregava
apenas sua pequena mochila de hidratação e seguiu sentido contrário do meu. A
temperatura tava amena nessa parte da manhã.
A próxima praia seria a Grande do Bonete, mas antes teria
mais uma subidona, porém essa ia ganhando altitude aos poucos e numa trilha um
pouco mais aberta. Totalmente autoguiada também, sem erro. Como dito, o trecho
mais difícil já tinha ficado pra trás. Na Praia Grande do Bonete já se tem
algumas habitações e também há movimentos com vendas de alimentos e bebidas. Na
ocasião eu deixei pra consumir algo só lá na Praia de Lagoinha mesmo, pois era
muito cedo. Contudo, já havia uma galera pegando uns barcos sentido cidade.
Locais, é claro.
bonetinho
Adiante veio a Praia do Bonetinho, todas elas ainda muito
agitadas, nada daquela calmaria que eu tinha apreciado nas fotos. Ainda assim,
ok! Tava na missão mesmo de caminhar e completar a travessia das 7 praias. A
partir daqui tudo já ficava suave de vez, foi um caminhar descompromissado, com
trechos agora com mais habitações, algum calçamento por vezes e eu trombando
com vários trilheiros e trilheiras que estavam iniciando a travessia. No caso vieram
lá da Lagoinha. Logo mais eu estaria lá também.
Por fim, ao chegar na Praia de Lagoinha, foi a vez de eu
fazer minha pausa maior e curtir uma praia. Já pedi milho, pastel, cerveja,
etc. Feliz e satisfeito com o rolê.
No final da tarde embarquei de volta pra SP, sem antes fazer uma refeição no centro de Ubatuba, já perto da rodoviária. Dessa vez fui
pra um bate e volta mesmo, pois no fim de semana teria compromisso que não poderia
faltar e nem emendar o feriadão. Vontade de ficar não faltou, pois Ubatuba é
muito convidativa.
No mais, segue o link wikiloc da trilha gravada que fiz,
terá mais infos sobre a trilha e ponto de água, etc.
Pedra da Mina via
Paiolinho: um bate e volta puxado.
Um certo fim de semana de maio de 2024, fomos andar e nos
aventurar pela desafiadora Serra Fina, não para fazer a clássica travessia, mas
para encarar um bate volta puxado de 1 um dia. No caso, o Pico da Pedra da Mina,
via Paiolinho.
O dia escolhido foi um sábado, que foi trilhado por toda sua
extensão do dia, e com trechos feitos à noite. No total, em torno de 15km ida e
volta, mas não pensem que é pouco, pois o terreno acidentado por demais, as inúmeras
escalaminhadas durante o trajeto, sobe e desce de morros, falsos cumes, etc.,
faz com que essa tarefa seja árdua por demais, aqui (lá), mais do que nunca,
além do preparo físico, o psicológico precisa ajudar da mesma forma. Caso
contrário, ocorre a desistência! Mas, como desistir de uma montanha? Principalmente
quando já se está no meio do caminho? O sofrimento pode ser menor, voltando
antes pra se preparar mais numa outra ocasião, porém o sofrimento psicológico posteriormente
pode ser forte também. Uma escolha difícil. Então, é bom ter em mente que é fatigante,
sim!
Planejamento
Chegou a temporada de encarar as montanhas, pegar dias com
menos chuvas e com poucas chances de trovoadas, ah como era esperado essa
época. No plano de uma trilha como essa é crucial saber a previsão do tempo,
não tem margem para encarar tempestades nessa região – e isso eu me perguntava
sempre lá no caminho: “imagina isso aqui na chuva?”
Outro ponto do planejamento é já agendar e comprar o
ingresso de acesso ao RPPN, que é administrado pela Ruah! Ecoturismo. Lá, no
site dessa empresa, tem as informações necessárias para adentrar tal trilha.
Para o bem ou para incômodos, eles estão lá, nem sempre com preços acessíveis,
mas parece que acaba por colocar uma certa ordem na situação. Ainda mais tendo
em vista a fama que a Serra Fina possui e com isso atraindo muitas pessoas a
fim de buscar momentos de aventuras. No entanto, nem sempre todos se
comprometem a ter uma postura de mínimo impacto na serra, isso é o que intriga,
pois o desfecho pode culminar em grandes desastres.
Então, ao comprar os ingressos, além de assinar os termos de
responsabilidade, tem que ter alguns itens obrigatórios para trilhar. A título
de exemplo: Shit Tube, Headlamp (Lanterna de cabeça), Manta de Emergência,
Apito, Celular com carga, GPS (recomendado o Wikiloc da trilha – o app), etc.
Outro ponto é a questão da hospedagem. No nosso caso
preferimos ir direto pro parque na madrugada, pois como iniciamos viagem após o
trabalho numa sexta-feira, não compensava ir pra hospedagem chegando tarde lá (na
hospedagem) e precisando acordar já cedo na madrugada. Mas essa escolha de ir
direto até a portaria da trilha – Fazenda Serra Fina – é uma escolha cansativa
também, até porque uma noite com um sono bem dormido não vai ter – e não teve rs.
Até tentamos alguns contatos, mas como não deram certo resolvemos
ir direto pensando que conseguiríamos acampar no estacionamento da Fazenda Serra
fina. Para nossa surpresa, tinha uma porteira fechada de cadeado a uns 2km
ainda da guarita da trilha. Ok, cochilamos no carro mesmo. Não tava muito frio,
o céu muito estrelado, mas não tinha tempo de ficar olhando pro ar, o jeito foi
arriar os bancos e tentar algum cochilo que surgisse do nada, em meio à
ansiedade também de já iniciar e de estar em viagem.
A estrada terra dava pra subir porque não tinha chovido por
dias, mas em dias chuvosos deve ficar muito difícil de subir hein. Meu primo,
Fepa, estava no volante e, já cansado também da viagem, levou o trecho mais ou
menos numa boa. 01h30 da manhã estacionamos bem em frente dessa porteira
fechada.
(dica: Pra facilitar já joga no google maps o trajeto antes,
mesmo que use o waze na viagem. Ou até mesmo baixe o wikiloc desse trecho, de Passa
Quatro até a Fazenda Serra Fina)
Outro ponto é a questão da alimentação, jamais subestime
esse item, pois tem gente que não vive sem um café da manhã reforçado, outras
pessoas preferem ter um almoço reforçado. Enfim, como é um bate e volta a
intenção é justamente subir com menos peso possível, então inviável levar fogareiro
e tudo mais, foi pensado, assim, em lanches de trilha, coisas para dar energia
e sustância ao mesmo tempo.
(dica 2: Agora voltando à questão da hospedagem, a que
usamos no retorno de tudo. O Fepa conseguiu um contato bom, de um Hostel recomendadíssimo:
o Hostel Vila Carioca [Passa Quatro], bem aconchegante, receptivo e com bom
custo-benefício. Um apartamento com 2 camas, banheiro com chuveiro quente,
frigobar, toalhas, roupa de cama, café da manhã, da tarde, etc. saiu por R$ 230,00 pra 2 pessoas. Foi
tudo que necessitávamos naquele momento da volta...)
Na trilha
Deu 05h00 em ponto e o rapaz que ficaria na guarita abriu a
porteira. O cochilo passou tão rápido que parece que só pisquei. Nesse trecho a
subida continua forte e cada vez mais íngreme. Não é pra menos, já iriamos parar na guarita que fica a aproximadamente 1550 metros de altitude. Agora, só pra ter
uma ideia da bucha em que nos envolvemos, o cume da Pedra da Mina possui 2798
metros de altitude, e tudo isso de diferença deveria ser vencido não só
subindo, mas descendo também, pois imagina você pensar que está se aproximando
do topo, daí vem uma descida pra testar sua paciência, rs...
Haja paciência, é verdade, pois paciência é uma das
virtudes, não é? Quando você pensar em dizer que nem seria tudo isso que dizem,
calma, você terá a resposta no final, rs...
Eu iniciei a trilha sendo uma pessoa, aquela determinada,
confiante, sem dores, cheia de fôlego, na volta a história foi outra.
Batia 05h40 quando já estávamos caminhado pela mata fechada,
um trajeto sem muito aclive, um caminho sem obstáculos, como se fosse um
passeio de bosque. O dia não tinha amanhecido ainda. Usávamos lanterna para
iluminar os passos adiante. Andávamos rápido, tinha um grupo mais atrás, só que
iriam acampar e, com isso, estavam mais pesados. Logo mais à frente vimos que
esse grupo se dividiu em 2. Com 4 integrantes em cada um deles, o primeiro grupo nos passou
após 1 hora de trilha. Nesse momento, já não precisávamos mais usar nossas
lanternas e já tínhamos feito uma pequena pausa uns 10 minutos antes.
As bifurcações que mostravam no mapa - o wikiloc que eu
tinha arquivado no off-line do meu app – não se fizeram presente nessa trilha,
pois o parque fez um trabalho de “fechar” essas bifurcações, e aqui adianto, a trilha
se encontra praticamente autoguiada, pois nos pontos de altitude mais elevada,
têm-se os totens indicando o caminho correto, além de estarem também com o reflexo
para lanterna em casos de caminhada noturna, e, além do mais, não tinha capins
pra atrapalhar no curso do trajeto.
Depois de mais de 1 hora de trilha a subida começa a ficar
mais inclinada, a erosão e obstáculos da trilha já se faz presente, o primeiro
ponto de mirante chega a aparecer. Então a partir daí é só subida de fato. No
entanto, acalme o coração, pois o trecho mais temido, o mais falado, talvez o
mais desafiador do dia, ainda estava por vir: a subida do “Deus Me Livre”.
Após passar por uma clareia para acampamento, chegou então o
último ponto de água, no caso é um ponto de água que se tem em toda a
temporada, não seca. Esse ponto de água é importante pois se localiza bem no
pré-Deus Me Livre. Depois disso, prepare-se para escalar e se trepar nas
rochas. Aqui, não só força, mas paciência, novamente. 2 horas de trilha já
tinha se passado. Momento esse que pensei que chegaria no cume com 5 horas no
total... ledo engano. Mesmo já tendo ultrapassado o grupo que estava à nossa frente.
Com o Deus Me Livre vencido (em partes – tinha a volta rs) começou-se
então a descida desse morro. Nisso, já avistava bem imponente a ascensão do
morro “Misericórdia”. Até aqui tudo ia bem comigo, até que nessa descida passei
a sentir uma velha dor que me vem acompanhando há tempos, sobretudo depois que
jogo futebol ou fico muito tempo em pé. É uma dor na sola do pé, bem na região
do calcanhar! Foi nesse instante que percebi que qualquer trecho de descida
seria trabalhoso pra mim, no sentido que eu teria que evitar um impacto direto,
ou seja, teria que aliviar e não pisar primeiro com o calcanhar, rs.
Uma coisa eu tinha na cabeça, quando esquentasse mais, essa
dor iria passar... ledo engano novamente. Mas segui!
Eu entendo as pessoas falarem do Deus Me Livre, mas o
Misericórdia judia da mesma forma. Minha nossa, que sequência é essa. Não é pra
pouco, não. Puxado de fato!
O que torna tudo mais empolgante é a paisagem ao redor. Ah como
essa região é bonita, que serra massa em nosso entorno. Olhar para o caminho
traçado se torna uma cena de filme, um cenário desenhado com as melhores
intenções possíveis. Ora vemos a cadeia de montanha da Serra Fina, ora avistamos
a cidades bem pequeninas lá ao longe, quando não, estamos apreciando outras montanhas
da Serra da Mantiqueira. Leva-nos a pensar que vale a pena, apesar de ser
puxado.
Já tinha dado 5h10min de trilha quando eu estava próximo da
base da Pedra da Mina. Acredito que era umas 11h25. Ou seja, nada de cume em 5
horas. De fato foi em 6h25min.
Antes de me acelerar para o ataque à Pedra da Mina, sentei
(quase deitado mesmo rs) e pensei que não aguentaria, mas eu já tava pensando
na volta. Ia ser tenso! Mas, mano, pra quê sofrer por antecedência...
Quando a neblina tomava a atmosfera, o tempo esfriava, daí eu colocava
a blusa, mas logo o sol aparecia novamente, então tirava a blusa. Por bem dizer
levei 2 blusas e nem usei direito. Uma coisa eu posso dizer que deu bom pra nós,
foi o fato de ter ventado muito pouco, ufa! Lembro-me que no Pico dos Marins a
ventania não cessou um segundo, aumentando consideravelmente a dificuldade de
locomoção, aqui não tivemos esse problema.
Ah o Vale do Ruah, uma tela bela sob nossos olhos, foi só
olhar para o lado, revitalizou pra subir o último trecho. Vencido, foi assinar
o livro de cume, descansar um pouco curtindo visual, enquanto chegava um
pessoal vindo lá da Toca do Lobo.Já dos
que tinham acampado lá em cima, uns 20 minutos depois de nossa chegada eles se
foram.
Apesar de estar no topo, o pensamento nem sempre era
favorável, era um misto de sentimentos. Por um lado, sensação de missão
cumprida, sensação de objetivo alcançado. Por outro, nem tanto, pois ainda
tinha a volta. Aqui, o ditado de que pra 'descer todo santo ajuda', não cabe
nadinha. É real que eu estava cansado e, com a pausa, as dores no pé e nas coxas
eram evidentes. Todavia, como dito, já não tinha como desistir, o jeito era se
tornar outra pessoa, a pessoa da descida – aquela pouco determinada, com dores,
pouco fôlego e quase chorona (reclamona) rsrs!
13h20 marcou o tempo da volta, encontraríamos mais pessoas
fazendo o trajeto de ida, a maioria era a galera que ia acampar pra ver o pôr
do sol e conseguintemente o nascer do sol no dia, isso se acordassem, é claro.
Além dos que estavam subindo, tinha um grupo que veio lá da
toca do lobo, passando pelo Pico do Capim Amarelo, pela Pedra da Mina e
descendo via Paiolinho. Esse grupo eu deixava passar, pra eu ir numa boa, meu
primo foi bem à frente também. Vez e quando ele esperava num certo ponto.
Quando ele retomava, daí era a vez de eu parar um pouco.
Percebi que tinha gente fazendo uma trilha dessa magnitude
pela primeira vez, (ou até mesmo a primeira trilha deles?) e percebi que
estavam frustrados pela tamanha dificuldade física, não técnica. Estavam com
guia (talvez nem seja guia propriamente dito) que seguiu com parte do grupo bem
avançado e deixou a maioria pra trás. Só vi que começaram um bate-boca bem
entre morros, uma parte lá do Misericórdia e outra parte no cume do Deus me
Livre. “Se fosse pra trilhar sozinhos não pagaríamos caro por um guia, etc”. Um
exemplo das falas, rs.
Sei que pra atingir aquele ponto d’água lá na base do Deus
me Livre demorou demais. Pensava que nunca ia chegar. O céu se preparava pra
escurecer, foi questão de minutos e me pus a trilhar no escuro (mas com
lanterna). Assim foi até as 20h20min, quando cheguei na portaria e dei baixa no
meu nome. Nesse tempo o moço da guarita tava preocupado, algumas pessoas que
marcaram bate-volta provavelmente iriam acampar lá. Outro grupo, o do guia
mesmo, tava bem atrás e esse “guia” teve que voltar lá, em sua trilha noturna,
para resgatar seus clientes, não parceiros de trilha.
Enfim, a volta fiz em 7 horas, sofridas por demais. Preciso
de mais preparo, pois essa é puxada. Mas no final é agradável. Até porque
prevalece o trecho que assinei no livro do cume:
“Quero assistir o sol nascer... ver as águas dos rios
correr... ouvir os pássaros cantar... eu quero nascer, quero viver.... Deixe-me
ir, precisar andar.....”
Pra um dia encarar a Travessia completa da Serra Fina!!!